Como as neurociências podem ajudar na gestão de pessoas e na qualidade de vida no trabalho

Todo conhecimento científico exige responsabilidade e seriedade para sua utilização e sabemos que para poder aplicar as neurociências no mundo corporativo é necessária uma formação adequada a partir de estudos contínuos por parte do gestor ou mesmo do consultor que presta serviços à organização. As neurociências começaram a ganhar espaço a partir dos anos 90 e se desenvolveram substancialmente desde então. No Brasil, o interesse vem crescendo bastante, apesar do pouco investimento nessa área.

Além da falta de especializações, assuntos envolvendo o estudo das atividades cerebrais e desenvolvimento, acabam sendo limitadas a algumas áreas da saúde como a Neuropsicologia e em poucos meios acadêmicos do país. Estando presente com mais influência em empresas americanas, britânicas e australianas, mais especificamente em seus setores de recursos humanos e planejamentos de projetos, diversas consultorias a utilizam para otimizar treinamentos corporativos e compreender os mecanismos neurológicos envolvidos na tomada de decisão, organização e percepção dos métodos de trabalho, consumo e inteligência estratégica. Os benefícios da sua utilização são vários e vão desde o aumento da produtividade à melhoria do ambiente de trabalho e otimização das relações interpessoais.

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Para ilustrar, temos a chamada “cronobiologia”, que consegue identificar em quais horários do dia o organismo humano produz mais substâncias químicas para a atividade física e mental. Se o gestor souber explorar tais períodos, pode conseguir um aumento significativo de produtividade. Sabe-se, por exemplo, que a maioria das pessoas é mais produtiva entre as 6h e as 10h e entre 16h e 20h. No restante do tempo, o corpo precisa se esforçar mais, então o volume e qualidade do trabalho são menores, como depois das refeições em que o organismo se concentra em fazer a digestão e perde significativamente a energia disponível para gastar em processos cognitivos. Daí a necessidade da criação de espaços de lazer e relaxamento, ou “área da soneca” que está se tornando cada dia mais comum em países mais desenvolvidos.

Outra utilização possível das neurociências está no alcance da eficiência em treinamentos. Sabe-se que o aprendizado neurológico tem 4 etapas: a aquisição de dados; a informação (que é a repetição dos dados recebidos, mesmo que eles ainda não tenham significado compreensível), o conhecimento (quando o significado é compreendido); e o saber (quando o conhecimento está gravado nas células, não é mais esquecido). Pouquíssimos treinamentos ministrados em empresas chegam até a última etapa e por isso muitos deles precisam ser repetidos. A pessoa que recebe a informação é quem pode colocar significado na mesma, através das suas experiências de vida e alcance de compreensão. O aprendizado é proveitoso ou acontece eficazmente na presença da repetição ou emoção, o que significa que os treinamentos precisam ser práticos a todo tempo, ou tocar de alguma forma o indivíduo. Os gestores devem buscar por treinamentos divertidos, instigantes, curiosos, motivadores naquele contexto.

A melhoria do ambiente de trabalho também é possível quando se utiliza da neurociência para identificar os problemas como as mudanças na organização, que deixavam os colaboradores com receios. Sabe-se que quando há uma mudança de gestão, ou de processos, o medo aparece e não permite que a informação seja processada de forma completa. O cérebro recebe a informação de que não está preparado para aquela novidade. Ele precisa de um tempo para se adaptar, e aí a produtividade decai. A liderança precisa ter consciência desse fator e orientar o seu pessoal, o que contribui para um ambiente mais saudável, em que as pessoas se sintam mais motivadas.

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Quando consideramos que as empresas são conglomerados de pessoas que buscam realizar os seus sonhos e com eles a felicidade e a autorrealização, a troca de interesses entre funcionários e administradores passa a ser recíproca. Isabel Spindola, autora do livro “Coaching e Neurociência desenvolvendo líderes excepcionais” diz que as horas mais preciosas da nossa juventude, são aquelas em que estamos trabalhando para sobrevivermos e nos desenvolvermos, por causa disso, potencializamos nossa inteligência. A inteligência é enriquecida e potencializada com as experiências que cada um consegue vivenciar pelas escolhas que faz ao longo da existência.

Quando o sistema de recompensa cerebral está ativado existe a motivação para se fazer as coisas que mais acreditamos. Quando estamos realizando um trabalho em que sentimos prazer e, sabemos que isso nos trará reconhecimento pessoal ou profissional,nos orgulhamos do que somos, com isso, ativamos o nosso potencial criativo. A felicidade e contentamento nos dão uma sensação de dever cumprido e o sentimento de autorrealização nos faz sentir plenos. É neste momento, que costumamos apresentar ideias geniais e comportamento de alto desempenho. Sentimo-nos capazes, fortes e prontos para irmos mais além. Sonhamos com as promoções e contamos para as pessoas sobre os nossos esforços e a satisfação pelo o trabalho bem feito. Quando as pessoas celebram conosco as suas conquistas, nos faz sentir importantes e este sentimento nos traz confiança, vontade de seguir adiante e aceitar novos desafios. A isso chamamos de superação permanente.

As pessoas bem sucedidas tentam ativar o sistema criativo todos os dias em busca de prazer e autorrealização. São otimistas por natureza. Só que o cérebro tem os seus limites e dependendo do nível de estresse, o profissional pode transformar ansiedade positiva em dor emocional, pelo cansaço e a exaustão. Ninguém consegue ter um alto desempenho o tempo todo sem altos níveis de estresse e, a frequência das pressões por resultado pode transformar força em fraqueza e frustração. O que era estimulante, deixa de ser.

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O cérebro não trabalha bem com altos níveis de estresse. Portanto, é preciso reconhecer limites e fazer atividades de entretenimento que pareçam razoáveis e dê prazer quando estiver cansado. O mundo corporativo pode parecer exaustivo às vezes, mas é através do trabalho que realizamos muitos de nossos sonhos. Não é à toa que com frequência queremos o reconhecimento do outro para nos sentirmos validados, e, buscamos evitar a dor emocional do desamparo a qualquer custo. Quando estamos desestimulados e negativos, a cabeça dói o corpo não levanta de manhã, a percepção da realidade fica distorcida. A tudo isso chamamos de desconforto cognitivo. Precisamos ser apreciados e de preferencia fazermos parte dos grupos sociais que existem nas empresas e fora dela. Gostamos de ter histórias legais para contar. Precisamos ser amados, mesmo que este amor seja entendido como respeito às atividades que desenvolvemos. A nossa identidade profissional é uma conquista de muitos anos e certamente quando nos olhamos no espelho, queremos enxergar alguém com uma história bacana e com vivências prazerosas.

Para concluir podemos dizer que quem conhece o cérebro, conhece mais e, é possível utilizar da ciência para se desenvolver cada vez mais as pessoas, respeitando suas singularidade e ritmos de trabalho. Afinal de contas, no entendimento das neurociências, verificamos que todos nós estamos incluídos em um projeto que tem suas limitações biológicas óbvias mas que podem ser constantemente modificadas e construídas: o corpo humano.

Guilherme Bernardes

Assessor de Criação e Mídias da RH Consultoria Júnior – UFMG

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